adicionar aos favoritos | São Paulo/SP

28/08/2008 00:07
ASPIRAÇÃO – I
Quero apossar-me do é da coisa. (10)
Quero possuir os átomos do tempo. (10)
Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada. (25)
Mas bem sei o que quero aqui: quero o inconcluso. Quero a profunda desordem que no entanto dá a pressentir uma ordem subjacente. (31)
Um dia eu disse infantilmente: eu posso tudo. Era a antevisão de poder um dia me largar e cair num abandono de qualquer lei. Elástica. (33)
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ÁSPERO OFÍCIO – I
Ao escrever, não posso fabricar como na pintura, quando fabrico artesanalmente uma cor. (13)
Escrevo por profundamente querer falar. (13)
E se digo “eu” é porque não ouso dizer “tu”, ou “nós” ou “uma pessoa”. Sou obrigada à humildade de me personalizar me apequenando mas sou o és-tu. (14)
Inútil querer me classificar: eu simplesmente escapulo não deixando, gênero não me pega mais. (14)
Quero escrever-te como quem aprende. (15)
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ÁSPERO OFÍCIO – II
Um instante me leva insensivelmente a outro e o tema atemático vai se desenrolando sem plano mas geométrico como as figuras sucessivas de um caleidoscópio. (16)
Aquilo que capto em mim tem, quando está sendo transposto em escrita, o desespero das palavras ocuparem mais instantes que um relance de olhar. (18)
Escrevo-te como exercícios de esboços antes de pintar. (22)
Quem me acompanha que me acompanhe: a caminhada é longa, é sofrida, mas é vivida. Porque agora te falo a sério: não estou brincando com as palavras. (24)
Sei o que estou fazendo aqui: estou improvisando. Mas que mal tem isto? Improviso como no jazz improvisam música, jazz em fúria, improviso diante da platéia. (26)
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SER – I
Eu sou antes, eu sou sempre, eu sou nunca. (21)
À duração da minha existência dou uma significação oculta que me ultrapassa. Sou um ser concomitante: reúno em mim o tempo passado, o presente e o futuro, o tempo que lateja no tique-taque dos relógios. (25)
Sou sozinha, eu e minha liberdade. É tamanha a liberdade que se pode escandalizar um primitivo. (27)
Não sei o que estou escrevendo: sou obscura para mim mesma. (27)
O mundo: um emaranhado de fios telegráficos em eriçamento. E a luminosidade no entanto obscura: esta sou eu diante do mundo. (28)
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NOSCE TE IPSUM – II
Transfiguro a realidade e então outra realidade, sonhadora e sonâmbula, me cria. (26)
Assim como me lanço no traço de meu desenho, este é um exercício de vida sem planejamento. (27)
O mundo não tem ordem visível e eu só tenho a ordem da respiração. Deixo-me acontecer. (28)
Minha liberdade pequena e enquadrada me une à liberdade do mundo – mas o que é uma janela senão o ar emoldurado por esquadrias? (30)
Escrevo-te porque não me entendo. (33)
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ASPIRAÇÃO – II
Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não-palavra – a entrelinha - morde a isca, alguma coisa se escreveu. Uma vez que se pescou a entrelinha, poder-se-ia com alívio jogar a palavra fora.
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ÁSPERO OFÍCIO – IV
Minha pintura não tem palavras: fica atrás do pensamento. (34)
Para te escrever eu antes me perfumo toda. (63)
Agora vou escrever ao correr da mão: não mexo no que ela escrever. Esse é o modo de não haver defasagem entre o instante e eu: ajo no âmago do próprio instante. (63)
Escrevo-te em desordem, bem sei. Mas é como vivo. Eu só trabalho com achados e perdidos. (87)
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CLARICE LINSPECTOR...
PS: http://www.youtube.com/watch?v=rnmrQuJOMEc&feature=related